Leitura e intertextualidade


Será possível ensinar alguém a ler com competência. Não falo aqui da decodificação do código e sim da interpretação correta que vem da leitura, relação entre as ideias, contexto de produção e por aí vai. Bem, há, ainda, pelo menos duas propriedades do texto que têm um papel importante no processo de leitura: a "incompletude"do texto e a intertextualidade.

No primeiro caso, podemos dizer que todo texto apresenta lacunas em sua constituição, pois, dentro de seus limites e em sua superfície, não pode dar conta de todos os significados possíveis que efetivamente transmite.

A esse respeito, veja o que diz Eni R Orlandi:

Quando se lê, considera-se não apenas o que está dito, mas também o que está implícito: aquilo que não está dito e que também está significando. E o que não está dito pode ser de várias naturezas: o que não está dito mas que, de certa forma, sustenta o que está dito; o que está suposto para que se entenda o que está dito; aquilo a que o que está dito se opõe; outras maneiras diferentes de se dizer o que se disse e que significa com nuances distintas etc.

exercício-enem-interpretacao-descomplica (3)Podemos elencar, aqui, desde as simples elipses até as referências a fatos culturais ou conhecimentos partilhados, que não precisam ser explicitados para que se apreenda determinado significado - ou, como diz a autora, o que se opõe ao que está dito, ou outras maneiras de dizer etc.
Isso significa que há uma superfície do texto e os significados profundos que se apreendem a partir dessa superfície - as entrelinhas, como diríamos em outros tempos. O trabalho de apreender e de completar é justamente do leitor. Portanto, ele participa da constituição dos significados do texto por meio de sua vivência como sujeito-leitor de textos e do mundo. Essa vivência é ainda fundamental quando se trata da intertextualidade. Nesse caso, em especial, importa a vivência como leitor.

Inúmeras vezes os textos remetem a outros e seus sentidos somente se completarão se o leitor conseguir estabelecer essas relações. Trata-se da intertextualidade em sentido restrito. Em sentido amplo, as relações que se estabelecem passam pelo género, por tipos, por temas, sem que se refiram a um texto específico que possa ser identificado.

O leitor, portanto, forma-se com o tempo, a partir das leituras que faz e das relações que vai estabelecendo entre essas leituras. Quanto maior a trama dos enredos, dos tipos, dos temas, dos géneros, dos dados de cultura e de mundo que o leitor for incorporando, maior sua capacidade de atribuir significados a um determinado texto, melhor sua qualidade como leitor.

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