Indianismo - Características, autores e temas Romantismo


A contribuição dos teóricos europeus, o nacionalismo ufanista pós-1822 e as viagens para o exterior de uma jovem intelectualidade -nascendo daí o famoso sentimento do exílio - fornecem o quadro histórico onde aponta a primeira geração romântica. O apogeu da mesma ocorre entre 1836 e 1851, quando Gonçalves Dias publica Últimos cantos, encerrando o período mais fértil e criativo de sua carreira.

GONÇALVES DE MAGALHÃES (1811-1887)

exercício-enem-interpretacao-descomplica (3)OBRAS: Suspiros Poéticos e Saudades (1836); A Confederação dos Tamoios (1857).

A Gonçalves de Magalhães coube a precedência cronológica na elaboração de versos românticos. Suspiros poéticos e saudades é a materialização lírica de algumas ideias do autor sobre o Romantismo, encarado como possibilidade de afirmação de uma literatura nacional, na medida em que destruía os artifícios neoclássicos e propunha a valorização da natureza, do índio e de uma religiosidade panteísta.

Durante anos, Gonçalves de Magalhães foi considerado o maior poeta pátrio. Transformou-se   em símbolo oficial da literatura brasileira, merecendo inclusive grande apreço de  D.Pedro II. A confederação dos tamoios, tentativa de indianismo épico em que a prolixidade* dissolve o lirismo,  significou a crise dessa carreira triunfante. Submetida à primeira e dura revisão crítica, com José  de Alencar denunciando o artificialismo de sua  composição, a obra  de Magalhães começou a ser relegada a um plano secundário. Sob pseudônimo, o próprio Imperador sai em defesa de seu protegido, mas os argumentos de Alencar eram irrefutáveis.

Restava-lhe a importância histórica, e esta era incontestável. O Romantismo fora  introduzido
por ele.

GONÇALVES DIAS (1823-1864)

VIDA: Filho de um comerciante português e de uma mulata que viviam em concubinato, Antônio de Gonçalves Dias  nasceu  em Caxias, no Maranhão. Viajou muito pelas províncias do Norte e pela Europa, sempre a serviço. Afetado pela tuberculose, tentou a cura na França. Desenganado pelos médicos, retornou num cargueiro que naufragaria, já nas costas do Maranhão. A única vítima do naufrágio foi o poeta, que contava então quarenta e um anos de idade. OBRAS: Primeiros cantos (1846); Segundos cantos (1848); Sextilhas de frei Antão (1848); Últimos cantos (1851); Os Timbiras (1857).

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Gonçalves Dias consolidou o Romantismo no Brasil com uma produção poética de boa qualidade. Entre os autores do período é o que melhor consegue equilibrar os temas sentimentais, patrióticos e saudosistas com uma linguagem harmoniosa e de relativa simplicidade, fugindo tanto da ênfase declamatória como da vulgaridade. Pode-se dizer que o seu estilo romântico é temperado por uma certa formação clássica, o que evita os excessos verbais tão comuns aos poetas que lhe foram contemporâneos. Sua obra se articula em torno de três assuntos principais:

* O ÍNDIO
* A NATUREZA
* O AMOR IMPOSSÍVEL

O INDIANISMO

O elogio literário ao índio, como já foi observado, é mais do que uma convenção poética. Trata-se da reafirmação dos intuitos nacionalistas da primeira geração romântica, consequência direta do sentimento localista, posterior à Independência.

Em geral, essa literatura mescla elementos pitorescos (os habitantes do Novo Mundo) com a mitologia romântica europeia (a teoria do bom selvagem), acrescidos de uma a visão idealizada (os índios são falsos e, às vezes, inverossímeis) e referências etnográficas que deveriam conferir um tom "verdadeiro" às obras (roupagens, armas, costumes, etc.). O objetivo era a elaboração de um herói mítico brasileiro, de um antepassado glorioso do qual a nação pudesse se orgulhar.

A superioridade do autor maranhense sobre outros escritores indianistas resulta de três fatores:

* maior conhecimento da vida aborígine;
*  uso épico e lírico de um índio ainda não desculturado pelo homem branco;
* esplêndido domínio estilístico, sobretudo na questão do ritmo e da estrutura melódica.

Vários de seus poemas, que tratam dos primitivos habitantes, tornam-se antológicos, entre os quais Marabá, O canto do piaga, Leito de folhas verdes e, principalmente, I-Juca Pirama.

I-JUCA PIRAMA

Este texto é uma espécie de síntese do indianismo de Gonçalves Dias seja pela concepção épico-dramática da bravura e da generosidade de tupis e timbiras, seja pela ruptura, ainda que momentânea, da convencional coragem guerreira, seja ainda pelo belíssimo jogo de ritmos que ocorre no texto. I-Juca Pirama significa "aquele que vai morrer" ou "aquele que é digno de ser morto". Em sua abertura, o poeta apresenta o cenário onde transcorrerá a história:

No meio das tabas de amenos verdores, Cercadas de troncos - cobertos de flores, Alteiam-se os tetos de altiva nação. (...) São todos Timbiras, guerreiros valentes! Seu nome lá voa na boca das gentes, Condão de prodígios, de glória e terror!

Em seguida, inicia-se um ritual antropofágico:

"Em fundos vasos d'alvacenta argila / ferve o cauim. / Enchem-se as copas, o prazer começa, / reina o festim."

O jovem prisioneiro tupi, que vai ser devorado, resolve falar antes do desenlace, e com "triste voz" narra a sua vida desventurada.

Ao metro anterior, de dez sílabas poéticas, plástico e alegre, sucedem-se os versos de cinco sílabas, curtos, rápidos, sincopados. Estas variações contínuas indicam que o ritmo varia de uma parte do poema a outra, traduzindo a multiplicidade de situações do argumento.

Meu canto de morte
Guerreiros, ouvi:
Sou filho das selvas,
Nas selvas cresci;
Guerreiros, descendo
Da tribo tupi
Da tribo pujante,
Que agora anda errante
Por fado inconstante,
Guerreiros, nasci:
Sou bravo, sou forte,
Sou filho do Norte;
Meu canto de morte, Guerreiros, ouvi.

O índio tupi no seu canto de morte lembra o velho pai, cego e débil, vagando sozinho, sem amparo pela floresta, e pede para viver:

Deixai-me viver! (...)
Não vil, não ignavo,*
Mas forte, mas bravo,
Serei vosso escravo:
Aqui virei ter.
Guerreiros, não choro;
Do pranto que choro;
Se a vida deploro,
Também sei morrer.
*Ignavo: preguiçoso.

O chefe timbira manda soltá-lo. Não quer "com carne vil enfraquecer os fortes". Solto, o jovem tupi perambula pela floresta até encontrar o pai. Este, pelo cheiro das tintas utilizadas no ritual, pelo apalpar do crânio raspado do filho, e por algumas perguntas sem resposta, desconfia de uma terrível fraqueza diante dos inimigos. Pede então que o rapaz o leve até a aldeia timbira. Lá chegando, exige, em nome da honra tupi, que a cerimônia antropofágica ritual seja completada e que o filho seja morto. Mas o chefe timbira recusa-se, acusando o guerreiro tupi de ter chorado covardemente diante de toda a aldeia. Neste momento, o velho cego amaldiçoa o seu descendente:

Tu choraste em presença da morte?
Na presença de estranhos choraste?
Não descende o cobarde do forte;
Pois choraste, meu filho não és!
Possas tu, descendente maldito
De uma tribo de nobres guerreiros,
Implorando cruéis forasteiros,
Seres presa de vis Aimorés. (...)
Sê maldito, e sozinho na terra;
Pois que a tanta vileza chegaste,
Que em presença da morte choraste,
Tu, cobarde, meu filho não és.

Mal termina a maldição, o velho escuta o grito de guerra do filho. Ouvindo o rumor da batalha, os sons de golpes, o pai percebe que o filho está lutando para manter a honra tupi, até que o chefe timbira manda seus guerreiros pararem, pois o jovem inimigo se batia com tamanha coragem que se mostrava digno do ritual antropofágico. Com lágrimas de alegria o velho tupi exclama: "Este, sim, que é meu filho muito amado!"

Como chave de ouro do poema, ocorre uma transposição temporal no seu último canto. O leitor fica sabendo que os acontecimentos dramáticos vividos pelos dois tupis já tinham ocorrido muito tempo e que tudo aquilo era matéria evocada pela memória de um velho timbira:

Um velho timbira, coberto de glória,
guardou a memória
do moço guerreiro, do velho Tupi!
E à noite, nas tabas, se alguém duvidava
do que ele contava,
Dizia prudente: - Meninos, eu vi!

OS TIMBIRAS - Além desses poemas indianistas, Gonçalves Dias tenta elaborar uma epopeia intitulada Os Timbiras. Era um projeto ambicioso: os índios substituindo os heróis gregos, numa Ilíada brasileira, tropical, com abundantes e coloridas descrições da flora e da fauna.

A narrativa teria como eixo a formação e dispersão do povo timbira. A obra, contudo, fica inconclusa e os fragmentos elaborados são inexpressivos.

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