Introdução ao estudo do Realismo


Fugir da realidade é uma atitude coerente com a natureza humana. Sujeito à instabilidade de suas emoções, em um mundo cada vez mais instável, o homem ora recebe o firme impulso da coragem, ora sente o frio abraço do medo, ou sorri ante o êxito de seus empreendimentos ao mesmo tempo em que teme a súbita rasteira da frustração. A exaltação do prazer é ofuscada pela noção da iminente chegada da dor. Assim, em nossa breve existência, a realidade é um espelho de duas faces, uma que reflete o que somos e outra que sugere o que devíamos ou almejamos ser. E essa noção da realidade é fortemente incorporada ao pensamento do homem a partir da segunda metade do século XIX, época em que fica para trás aquele sentimento de que a imaginação é a fonte de inspiração para uma vida plena de felicidade.

Temos, então, um homem consciente de suas limitações frente à realidade da qual não consegue escapar. É o que procura retratar o artista do Realismo, que vê um panorama sombrio, de injustiça social, com o mais forte oprimindo o mais fraco, as instituições caindo no descrédito e o preconceito e a exploração atentando contra a dignidade humana. O Realismo também visa a expor as razões que justificam o modo como o homem procede nas diversas circunstâncias, sujeito sempre à força de sua natureza. Não há, portanto, como fugir da realidade, ou, para ser mais preciso, não há como fugir sempre da realidade. Cedo ou tarde ela se evidencia, pois o mundo é, antes de tudo, um mundo real. E o artista do Realismo procurou deixar isso impregnado em nossa memória.

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Os resquícios desse estilo de época ainda podem ser facilmente detectados em obras mais recentes, como no filme Umberto D, do neorrealista italiano Vittorio De Sica, em que a triste realidade de uma classe esquecida contrasta com o cotidiano de uma sociedade voltada para a satisfação de seus anseios. A impressionante arte do hiper-realista australiano Ron Mueck só não é mais real em virtude de suas dimensões, no entanto, nada deixa a desejar quando se leva em consideração a perfeita interpretação que o artista faz da natureza humana, vividamente estampada na face de cada figura retratada.

Um exemplo ainda mais recente é o romance Cidade de Deus, o livro de estreia do escritor brasileiro Paulo Lins, que surpreende tanto o leitor casual quanto a crítica especializada, principalmente pela habilidade em conduzir uma narrativa tão complexa, na qual a violência acaba sendo a personagem principal. Sem prescrever juízos ou defender posicionamentos filosóficos, o texto faz um retrato do desenvolvimento da criminalidade, prostituição e tráfico de drogas em uma favela da periferia do Rio de Janeiro. Não se trata da história de uma ou outra personagem, mas da história de toda uma comunidade.

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