Por que devo planejar meu texto no vestibular?


enem-redação-vestibular-interpretação (1)Neste artigo você vai aprender um pouco mais sobre a redação no vestibular. Por enquanto estamos ficando principalmente na narração, mas logo abordaremos os outros tipos de textos para que você chegue ao vestibular com todos eles na ponta da língua, ou melhor, do lápis. Em primeiro lugar, é bom saber: nós vamos planejar um texto e é bom que não se confunda isso com simplesmente fazer um rascunho.

Por que planejar?

Em primeiro lugar, porque você terá que ter domínio sobre o que escreve, a fim de que se sinta confortável para dar continuidade à história; em segundo lugar, porque você poderá ser surpreendido por um fecho que destoa do corpo do texto, uma linha de enredo que se embaraça e... some de repente, deixando um "branco".

Tal como um engenheiro que projeta um prédio, um avião, um aeroporto ou uma máquina, tão diferentes entre si, você também pode - e deve! - planejar o que vai escrever.

Para tanto, simulemos um modelo de enunciado semelhante ao da Unicamp. E, a partir dele, começaremos a planejar.

Tema

Abaixo, há elementos para a construção de um texto narrativo em que se tematiza o relacionamento entre duas pessoas, o cruzamento de duas vidas. Sua tarefa será desenvolver essa narrativa, segundo as instruções gerais.

"(…) as vidas não começam quando as pessoas nascem, se assim fosse, cada dia era um dia ganho, as vidas principiam mais tarde, quantas vezes tarde demais, para não falar naquelas que, mal tendo começado já se acabaram.(...) Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?"

(José Saramago, Jangada de pedra, Ed. Record, p. 16)

Uma cena

•    Uma mulher, triste, lê o texto que você encontrará disponível mais abaixo, pensa num homem que partilhou a vida dela anos atrás.

•    O texto é antigo, escrito para ela há muito tempo.

•    Está frio e chove lá fora, a casa está silenciosa e a mulher chora.

•    Um homem, sentado diante da escrivaninha do escritório, abre o computador e busca um arquivo: aparece na tela a amante ruiva, sorridente, feliz.

•    Um homem se olha no espelho e não se reconhece: tem rugas, cabelos brancos.

•    Um homem chora de saudades.

•    Uma mulher termina a leitura do texto, dobra o papel impresso e tenta reconstituir a história que viveu.

•    Um homem soluça de dor, indagando-se onde estaria a mulher ruiva que fez parte de sua vida.

•    Uma mulher se encolhe, se acomoda no sofá, imaginando onde estaria o homem que fez parte de sua vida. Ela também chora.

O texto lido pela mulher era o seguinte:

Nós temos histórias, segredos e medos.
De nos perdermos um do outro o maior deles. Poemas que tu me escrevestes temos, onde sou tema, sem rima, puro sentimento, com a cadência desusada do bater do teu coração.
Nós, entretanto, gostamos da chuva, e palavras temos que inventamos para nós. E jeitos e formas que criamos, e nossas mãos que reconhecem o contorno dos nossos rostos, ainda que cegos estejamos. Mundo que construímos para nós temos sem alicerces visíveis, mas firme. Há um lugar em que plenamente vivemos, nos temos.
De nós há uma parte maior que fica sempre em poder do outro, em secreto depósito, tal como protegido numerário suíço, que carregamos sem sentir o peso.
Há um imaginário chá de jasmim que juntos tomamos, há as histórias de nós que nos contamos, há o que juntos comemos, há o alimento que nos damos na boca da alma. Há o que mutuamente sabemos, que só nós sabemos sobre nós, que antes não sabíamos.
Amigos, parceiros, amantes, namorados loucos, somos tudo. Há os passeios aéreos noturnos que fazíamos
de mãos dadas. Voávamos, porque também podemos voar, sempre pudemos, embora disso não soubéssemos.
Um velho, um jagunço, uma mulher enleada nas primitivas cores dos panos, ladridos de cães nos protegendo, uma expressão arcaica que se refere ao tempo, um criado negro fiel e perigoso. Um cavalo, uma janela a ser saltada, um encontro num elevador, um conquistador barato, um amor fugidio num corredor deserto, um encontro numa estrada, um beijo na avenida movimentada de domingo.
Na rua andamos lado a lado, levando os livros que escolhemos juntos, medindo cada passo para não nos abraçarmos, a vontade de enlaçar teu ombro, vontade de furtar um beijo.
Rimos.
Há uma mistura de realidade e sonho que já não mais distinguimos, e nem queremos.
Há um pacto que subscrevemos.
Há a alegria de nos vermos. Há uma saudade que não passa, que ultrapassa tudo o que de razoável entendemos. Por conta disso inventamos o eterno abraço de quinze segundos, a efémera fotografia no espelho, o beijo com a porta do carro aberta, o telefonema, o bilhete eletrônico, a troca de pequenas coisas, símbolos que nos identificam. Estradas que percorremos em comboio. As frases que extraímos dos livros. A nossa posterior avaliação de desempenho, na qual analisamos otimizadamente os nossos sentimentos, sensação por sensação, cada contração de fibras, e nos descobrimos mais e mais.
E nos surpreendemos mais e mais com a nossa imensa capacidade de amar, antes duvidosa.
De toda forma nos amamos, com cem por cento de risco de ser para sempre.

Instruções gerais

•    É necessário que você use todos os elementos da cena que leu para construir as duas personagens, o enredo, o cenário e o tempo de sua narrativa.

•    O foco narrativo deverá ser em 3a pessoa e o narrador deve, dada a natureza da cena, ser onisciente.

•    O desenvolvimento do enredo, a partir da cena escolhida por você, deverá levar em consideração a citação do escritor José Saramago e estar atentamente ligado ao texto que a mulher leu.

•    Não será preciso que você utilize todos os elementos do texto escrito pelo homem.
Aprendendo a planejar

Verifique: quando um texto narrativo é pedido no vestibular, vem acrescido de uma série de exigências para que seja desenvolvido. Por isso, é necessário que aprendamos a planejá-lo. Veja o caminho, passo a passo:

1. Em primeiro lugar,   leia atentamente o enunciado. Sublinhe um a um os eixos de exigência e, antes de começar a escrever, releia o enunciado e verifique novamente cada item, principalmente não se esqueça de verificar qual é o foco narrativo que se exige.

2.  Perceba: o tema anuncia que você deverá escrever sobre o entrelaçamento de duas vidas.

3.  Na citação de Saramago, preste atenção: "as vidas principiam mais tarde, quantas vezes tarde demais, para não falar naquelas que, mal tendo começado já se acabaram.(...) Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?" Aqui, você encontrará também uma espécie de norteador do texto que escreverá: anuncia-se uma história que poderia ter sido. Será você a escrever esta história...

4.  Agora, preste muita atenção e não perca nenhum dos aspectos que terá de utilizar: um homem, uma mulher, ambos tristes, perdidos um do outro. Ela lê um texto que ele escreveu para ela; ele olha, nos arquivos do computador, uma foto. Especule, imagine. A foto é de outra mulher que os afastou? Ou a foto é dessa mulher que chora?

5.  Ambos não sabem mais um do outro, perderam-se. Por que motivo isso aconteceu? Você seria capaz de escrever em que circunstâncias isso ter-se-ia dado?

6.   O homem está envelhecido, o que escreveu a ela é texto antigo; portanto, está envelhecendo também esta mulher, não se esqueça dos detalhes.

7.   O texto que você lerá, escrito por ele, tem características peculiares: é uma espécie de inventário do que eles são um para o outro (são, porque, por ocasião da escritura, estavam juntos).

8.   Releia o texto, tire dele os componentes, cada um, para sua história: tente imaginar por que ele inicia dizendo que têm histórias, segredos e medos.

9.  Veja isso: "De nos perdermos um do outro o maior deles". Observe que isso aconteceu de verdade, perderam-se um do outro.

10.E mais: você terá que escrever em terceira pessoa, como narrador onisciente, o que permitirá que entre na intimidade das personagens, que revele o que cada um deles pensa, sente e sofre.

Só depois de vasculhar tudo isso, estar atento a todos esses componentes, é que poderá planejar passo a passo o seu texto.

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